Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Retratos da Mudança

“Qualquer pessoa que procure fazer o mundo um lugar melhor é um líder” Dr. Christopher Kayes, professor de Gestão na George Washigton University

Retratos da Mudança

“Qualquer pessoa que procure fazer o mundo um lugar melhor é um líder” Dr. Christopher Kayes, professor de Gestão na George Washigton University

Fundação Sonvela: Arte e Mudança em Ação no Mindelo

 

17424586_1658933770790627_5729694679042154963_n.jp

 

Sonvela foi um projeto que nasceu em 2010 numa mistura entre a realidade social do brasil e a pobreza em São Vicente. Freddy Gomes, o pensador do projeto, quis trazer o que de melhor aprendeu na experiência de trabalho nas favelas do Rio de Janeiro para o Mindelo e daí nasceu Sonvela, a conjugação de Soncent com favela.

 

A arte urbana foi a sua assinatura em Ribeira Bote, que com o turismo comunitário, já existente, se elevou a outro patamar e tornou-se num projeto de referência em Cabo Verde.

 

Retratos da Mudança: Como nasceu este projeto?

  

freddy_sonvela_arte.jpg

 

Freddy Gomes: Eu estava na Holanda, onde vivia, a preparar uma viagem para o Brasil para passar dois meses na favela da Rocinha. O mais importante desta viagem é que foi nesse momento que eu tive a oportunidade de conhecer e estudar o que é a desigualdade social.

 

E foi a partir desse momento que eu comecei a concentrar-me na necessidade de fazer algo por Cabo Verde.

 

 

RM: Mas já conhecia Cabo Verde?

FG: Sim, de férias. O meu pai é de Ribeira Bote e eu já conhecia bem São Vicente.

 

 

RM: E como surgiu o nome Sonvela?

FG: Foi um dia em que estava a andar de bicicleta para ir para o meu treino de futebol e estava a pensar na viagem que ia fazer ao Brasil e ao mesmo tempo estava a pensar em Cabo Verde também. Então este nome surgiu na minha cabeça.

 

Quando voltei do Brasil, decidi que queria fazer mais por Cabo Verde. Em março de 2011 voltei para casa e estava com ideia de passar um tempo em Cabo Verde. Não foi uma decisão fácil, mas eu precisava de criar esta organização.

 

Saí da Holanda em agosto de 2013, mas primeiro passei antes pelo Brasil novamente. Em janeiro de 2014 cheguei a Cabo Verde e passei dois anos em São Vicente.

13256149_1322305694453438_2900957472982495569_n.jp

 

 

 

RM: Conte-nos o percurso até à criação da Fundação.

FG: A Fundação foi registada em maio de 2013 numa altura em que eu estava a organizar um evento beneficente de futebol na Holanda, o CaboStars, que era uma equipa de cabo-verdianos da Holanda e Bélgica que ia jogar com uma equipa profissional de Roterdão.

 

No início começámos por apoiar pequenos projectos sociais já existentes. Dois projetos de explicação na Ribeira Bote, de meninos de todas as idades em todas as disciplinas e uma escolinha de Futebol na ilha da Madeira em Ribeira Bote.

 

A Sonvela Arte, que é a bandeira da fundação, surgiu de uma inspiração na experiência do Brasil e em Buenos Aires, como arte urbana. Gostei logo do projeto porque era uma forma de poder dar uma cara nova ao bairro.

 

RM: Como conseguiram dar vida ao Sonvela Arte?

FG: Iniciámos o projeto na Ribeira Bote, na ilha da Madeira e depois no Alto de Bomba, no Monte Sossego. O que nós queríamos, era que estes projetos pudessem trazer a mudança social para o Mindelo. Sonvela Arte, não é só sobre a Arte Urbana. O trabalho da mudança começa depois de terminarmos de pintar um local, porque eu sempre considerei que não seríamos nós a fazer pelos moradores da zona, mas sim os moradores a fazerem por eles mesmos.

11102703_1061707730513237_2372684762557111052_n.jp

 

RM: Como assim?

FG: Sonvela, efectivamente sou eu, a minha mãe e a minha irmã. Mas a equipa de trabalho era 100% de moradores. No dia que começámos o projeto tínhamos 18.000$ do meu trabalho no turismo, porque eu tinha decidido que 25% do meu trabalho como guia seria usado para um projeto social.

 

Falei com os moradores e eles apoiaram-nos, claro que houve outros que não acreditaram porque na Ribeira Bote nunca acontece nada a não ser em tempo de eleições. Eu já sabia disso e esse talvez tenha sido o maior desafio que eu já tive de ultrapassar neste projeto, que foi unir as pessoas em torno da possibilidade da mudança.

 

Através do Facebook fomos mostrando cada passo do nosso trabalho. A nossa vontade era criar o maior projeto de arte urbana conhecida em Cabo Verde.

 

Houve muitas pessoas que não acreditaram. Eu tive de convencer os moradores que eles tinham de tirar um dia de trabalho para o projeto, tudo em regime de voluntariado. Os 18.000$ acabaram logo no primeiro dia. Mas recebi uma mensagem de um amigo na Holanda a mandar-me dinheiro e aos poucos fomos continuando com o nosso projeto. No entanto, nunca sabíamos até quando íamos conseguir continuar, pela incerteza do dinheiro.

 

Uma das pessoas mais importantes deste projeto, é um pedreiro de Ribeira Bote, o Miguel, porque ele esteve no projeto todos os dias das 7h30 às 18h. O Ronaldo, foi outra pessoa que me ajudou a formar a equipa, depois tivemos muitos outros voluntários, até de fora do bairro, como por exemplo a Suzy e a Paty, estudantes de arquitetura que desenharam para nós o projeto da remodelação e que se encantaram com a iniciativa.

 

No primeiro dia fizemos uma rua inteira só a rebocar os rés-do-chão das casas, depois conseguimos alugar uns andaimes e começámos a pintar os segundos andares, até que finalmente começámos a pintar com cores vivas que representassem a Fundação e Cabo Verde.

 

Em graffiti, pintámos a imagem de Amílcar Cabral e os Tubarões Azuis e outras imagens representativas da nossa cultura.

17880327_1689811221036215_2809448022730465846_o.jp

  

RM: Qual é o próximo passo?

FG: A nossa vontade é fazer projetos em todo o país. Eu vejo a situação da cidade da Praia, a criminalidade e a insegurança, eu sei que um projeto como a Sonvela Arte teria muito valor.

 

Trabalhámos com pessoas muito talentosas, que antes estavam sempre envolvidas em problemas porque são pessoas que vivem em zonas esquecidas. Foi uma oportunidade para elas mostrarem o seu outro lado. Sonvela Arte deu-lhes uma direção.

 

E a Ribeira Bote teve uma nova dinâmica como espaço turístico com este projeto. Levei lá muitos turistas, como guia, integrado no projeto de turismo comunitário. As pessoas queriam era conhecer a realidade local e nós mostrámos-lhes que Ribeira Bote era um dos locais mais criativos em São Vicente. Muitas pessoas contaram-me que conhecer a zona foi a melhor parte da sua viagem. Eles sabem que Cabo Verde não é só Morabeza e praias e lá encontraram outro tipo de beleza e cultura. Depois os visitantes viam claramente que nós investíamos o dinheiro do turismo comunitário na reconstrução do bairro, porque a equipa estava a trabalhar durante as visitas.

 

18121183_1709950962355574_6781679892710535656_o.jp 

 

RM: E agora?

FG: A minha vontade é fazer muito mais. Mas tive de voltar e agora vivo na Itália. Neste momento, estou mais concentrado em conseguir mais fundos para retomar o projeto de forma estruturada e internacionalizá-lo para que outras pessoas no mundo possam conhecer e apoiar. O objetivo é regressar o mais rapidamente possível!

1 comentário

Comentar post